Simpático e engajado em interagir com o público brasileiro, Hector Sanchez, produtor de Mortal Kombat, disputou partidas, conversou com fãs, deu autógrafos e ainda conseguiu tempo para entrevistas enquanto esteve no Rio de Janeiro, na Brasil Game Show em 2010, promovendo o novo jogo de uma das franquias mais famosas dos games.

Infelizmente, na época o arquivo de áudio se perdeu em meio a uma confusão de anotações, arquivos, crachás e todo um inferno de informações que compõem o saldo final de qualquer um que tente fazer a cobertura de um evento como esse (a minha você já leu aqui no Deu Tilt). Mas graças ao amigo Márcio Filho consegui recuperar a entrevista. Registro aqui meus agradecimentos.

Abaixo você lê a entrevista na íntegra, já não tão atual quanto era na época, mas ainda assim muito interessante. Conversamos sobre as expectativas dos fãs, os problemas enfrentados com a violência presente nos jogos, o trabalho com Ed Boon e, claro, o mercado brasileiro de games e a impressão que causamos.

Leia, vença a preguiça e comente no final. Depois vá jogar um pouco de Mortal Kombat, é sempre bom.

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O que os jogadores podem esperar deste jogo? Tanto a velha geração que cresceu jogando Mortal Kombat quanto a nova geração que está sempre preocupada com gráficos?
Queremos trazer o melhor para ambos os grupos. Estamos trabalhando para fazer com que esse jogo seja muito nostálgico para os jogadores mais velhos que vão reconhecer os personagens e algumas arenas que são referências àquelas presentes em jogos anteriores. Então é claro que teremos tudo que as pessoas tem em mente quando pensam em Mortal Kombat como Scorpion, Sub-zero, The Pit, dentre outros.

Mas, como você disse, a geração mais nova quer belos gráficos, então quando voltamos à jogabilidade 2D foi possível gastar muito mais poder de processamento fazendo com que os personagens e os ambientes tenham mais detalhes, também temos efeitos de iluminação muito bons. Quando o jogador vê tudo aquilo pela primeira vez ele diz “Uau! Esse jogo é muito bom”. Queremos atingir ambos os públicos e esperamos que todo mundo goste. Temos as pessoas mais jovens que não cresceram com Mortal Kombat e que não sabem quem é Scorpion e precisamos apresentar esse mundo a elas e também precisamos cuidar dos fãs mais velhos.

Quando o primeiro Mortal Kombat foi lançado ele sem dúvidas foi um grande sucesso. Entretanto, o jogo recebeu diversas críticas sobre a violência usada no jogo, chegando inclusive a receber versões censuradas como as lançadas para os consoles da Nintendo. Os jogos amadureceram e hoje a violência é um dos focos principais de alguns games. O que mudou ao longo dos anos no modo como a crítica vê a violência na série?
Eu acho que se Mortal Kombat não tivesse trago a violência na linha de frente de um game então outro jogo o faria. Outro jogo teria sido tão violento quanto Mortal Kombat e então estaríamos todos falando sobre ele. O Mortal Kombat foi o primeiro jogo que realmente causou impacto pela maneira como exibia a violência.

Ao longo dos anos muitas pessoas fizeram jogos super violentos. Houve uma mudança de cultura ao redor do mundo e a violência já não impacta mais como antes. É triste, se você enxergar sob o ponto de vista humanista, mas as pessoas querem entretenimento. E no fim das contas é apenas um game. Se você arrancar a cabeça de alguém e depois explodir a pessoa em pedaços num jogo de videogame é bem divertido, mas sabemos que isso não pode acontecer no mundo real. Estamos apenas oferecendo um entretenimento, não estamos de maneira alguma promovendo a violência. Há outros jogos que exibem violência em situações e cenários mais realistas que acho ter maior impacto negativo do que o Scorpion tirando sua máscara e queimando alguém.

Todo mundo te pergunta sobre crossovers. Todos querem saber quando veremos Scorpion contra Ryu. Mas vamos trocar de papéis. É a minha vez de te perguntar, qual crossover você gostaria que fosse produzido com Mortal Kombat?
Meu sonho, e isso está bem documentado em algumas revistas, e muitas pessoas compartilham deste sonho comigo, é ver Mortal Kombat vs Street Fighter. Eu cresci como um fã de ambas as séries, jogando Mortal Kombat e Street Fighter, e acho que o impacto de ter Scorpion na mesma tela com Ryu ou Sagat e Subzero, seria incrível.

Mas é claro que pra isso muitas coisas precisariam acontecer, a Warner Bros e a Capcom são empresas gigantes e há executivos do alto escalão que precisariam se encontrar e fazer acordos e decisões até que nós, do nível de desenvolvimento, fizéssemos virar realidade.

As pessoas da equipe, Ed Boon especialmente, já teríam produzido um Mortal Kombat vs Street Fighter há muito tempo. Quem sabe o que vai acontecer no futuro?

Há alguma chance desse novo Mortal Kombat usar um desses sensores de movimento? Seria muito divertido fazer um Fatality, por exemplo, usando o Kinect.
Nosso processo de desenvolvimento desse jogo começou há alguns anos. Então não poderíamos fazer muito e seria uma implementação bem apressada se tentássemos incluir alguma funcionalidade com esses sensores de movimento. Mas sem dúvida são conceitos interessantes e é claro que vamos explorar essas possibilidades no futuro, mas agora estamos apenas focados em oferecer uma experiência de jogo balanceada e excitante em Mortal Kombat.

Enquanto esteve por aqui você interagiu com bastante gente. Eu pude ver você jogando, dando autógrafos, conversando e tirando foto com diversas pessoas que passavam pelo stand. Depois dessa experiência como você avalia o gamer brasileiro?
Pessoalmente o mercado brasileiro me interessa muito. Eu tenho uma grande afinidade com o Brasil, há tanto potencial por aqui e as pessoas são sempre tão apaixonadas por tudo que gostam, seja música, comida ou videogame. E eu sinto que estamos apenas começando a aproveitar esse talento quando falamos em games.

Estar aqui vendo a reação que nosso jogo causa, poder jogar com as pessoas e descobrir do que eles realmente gostaram é incrível. Há milhões de pessoas nesse país e os desenvolvedores não estão prestando atenção nesse mercado. Eu não me importo que eles façam isso porque nós estamos prestando atenção em vocês e vamos explorar esse potencial. Tem sido fantástico, eu amo o Brasil.

Como é trabalhar com Ed Boon? O cara é doido. Um gênio. Como é trabalhar com ele?
(risos) Ele é brilhante, ele é um modelo com quem trabalho todo dia. Eu sempre uso a comparação de que é como se você fosse um pianista e tivesse a chance de tocar com Steve Wonder ou Elton John. Eu quero criar jogos e trabalho com um dos melhores desenvolvedores de games no mundo. Ele é incrível, é hilário, uma das pessoas mais engraçadas com quem já trabalhei e você nem pensa nisso quando joga os games que ele cria. Até Mortal Kombat é engraçado sob um ponto de vista e ele tem um olhar muito bom pra essas coisas. Tenho sorte de poder trabalhar e aprender com alguém como ele.

Alguma história engraçada sobre o Mortal Kombat?
Sim, muita gente tem nos perguntado “Vocês escolheram o 2D por causa de Street Fighter?” e o engraçado é que decidimos voltar ao 2D mais ou menos em novembro de 2008 e não sabíamos nada sobre Street Fighter IV. Então ele foi anunciado e depois lançado e foi ai que descobrimos que ele também estava voltando ao 2D, isso causou uma boa recepção e muito sucesso, houve uma espécie de alívio entre os jogadores porque games de luta em 2D é o que os gamers querem. E nesse ponto nós já havíamos tomado essa decisão, mas sabíamos que no futuro as pessoas iriam perguntar se nós o fizemos porque Street Fighter fez. Mas eu tenho provas (risos), você pode ler meus e-mails antigos e vai ver que já havíamos decidido pelo 2D há muito tempo.

Qual mensagem você deixa para as mães que não permitem que seus filhos joguem Mortal Kombat porque “Oh, nossa, é violento demais”?
O sistema de classificação etária está aí e nós o apoiamos. É definitivamente uma escolha da família decidir o que as crianças vão poder assistir ou jogar, então eu não posso dizer às pessoas o que fazer com seus filhos. Meus pais me deixavam assistir filmes mais maduros quando eu era criança, enquanto os pais dos meus amigos não deixavam que eles assistissem, então eles sempre iam a minha casa e assistíamos juntos. Crianças são muito espertas, se elas querem muito fazer alguma coisa elas vão encontrar um jeito pra isso. Então nós só podemos apoiar os sistemas que existem.

Alguma mensagem aos jogadores brasileiros?
Sim. Obrigado pelo apoio que vocês tem dado a nossa franquia ao longo dos anos. Eu conheci muitos fãs aqui que disseram que Mortal Kombat é seu jogo favorito, conhecem muito bem os personagens e as histórias. Muito obrigado mesmo pelo seu carinho e eu prometo que vamos prestar muito mais atenção no mercado brasileiro. Com certeza voltaremos aqui várias outras vezes pelos próximos anos tentando engajar o público brasileiro em nosso processo de desenvolvimento.

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Mortal Kombat, o nono jogo da franquia, foi lançado em abril de 2011 para Xbox 360 e Playstation 3 e ganhou uma versão para PSVita em Maio de 2012.

Leonardo Marinho é apaixonado por games, viciado em tecnologia e apreciador de todas as formas de entretenimento. Quando possível ele tenta ser gamer, manter o Deu Tilt atualizado e levar uma vida normal. Sua consciência ainda não foi afetada pelas intempéries do tempo e ele aproveita essa façanha para redigir textos coerentes para o Deu Tilt. Ele faz o que pode…

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