Nessa geração me diverti mais com a Live Arcade do que com os grandes blockbusters desse nosso movimentado e caro mercado de games.

E não gastei muito pra isso. Aproveitei sabiamente, e em tantas vezes comprei por impulso mesmo, as diversas promoções que aconteceram ao longo dos anos. O resultado é uma biblioteca de jogos baratos, que me custaram em média uns 5 ou 10 reais cada, e que renderam muitas horas da mais pura diversão simples e descompromissada. Afinal, é pra isso que servem os games, não?

Você pode argumentar que um Arcade jamais vai chegar ao nível de um Skyrim ou Halo. E não vai mesmo, porque não é isso que ele quer se tornar. A natureza dos Arcades é ser simples, barato e muitas vezes testar novas ideias, ser original sem ter medo de fracassar. E convenhamos que originalidade está em falta nos games de hoje.

Castle Crashers, o gênero beat 'em up em toda sua glória

Essa foi uma geração cara, tanto para desenvolvedores quanto para os gamers. Jogos como Halo, Call of Duty, Assassin’s Creed e God of War ganham orçamentos cada vez maiores e mais ignorantes a cada nova iteração da franquia. O resultado todo mundo já sabe, se o projeto é caro então é melhor não arriscar. E dai então seguem-se fórmulas já saturadas, mas que comprovadamente levam ao sucesso e ao grande número de vendas. São jogos caros, desenvolvidos por empresas diferentes e com premissas distintas, mas que de certa forma são idênticos a tantos outros que vieram antes deles. O medo de arriscar, ser original e falhar, gerando prejuízos astronômicos à companhia, acaba alocando todos em uma zona de conforto. De certa forma o mundo dos games vive hoje o ataque dos clones.

E é ai que entram os Arcades e os Índie Games. Baratos de desenvolver, baratos de distribuir (um viva para a distribuição digital) e baratos de comprar, esses games viraram campo de experimentação de novas ideias e de pequenos desenvolvedores que querem colocar seus projetos na rua e entreter gamers no mundo todo.

Portal 2 é mole, quero ver resolver todos os puzzles de Fez

Claro que Dark Souls é difícil e blá, blá, blá, mas te desafio a terminar The Dishwasher: Vampire Smile na dificuldade samurai e completar todos os desafios arcade, dai então nós conversamos. Portal 2 foi sensacional, mas Fez foi o jogo que quase me deixou maluco com seus puzzles que incluíam até um dialeto próprio do jogo e salas totalmente surreais que até hoje não sei qual o segredo. E Castle Crashers? Se você gosta do bom e velho beat ‘em up e ainda não se aventurou com esses cavaleiros nervosos invadindo castelos e salvando princesas das garras dos bárbaros então você não merece meu respeito. Limbo e sua atmosfera solitária, Minecraft e suas infinitas possibilidades, Outland e seu visual e campanha impecáveis e, claro, The Walking Dead: The Game, considerado pela crítica o melhor jogo do ano. Quem diria, ein?

E isso sem citar aquele que considero o melhor Arcade de todos, Bastion. Qualquer um que entenda o mínimo de games há de concordar que um jogo como Bastion surge apenas uma vez a cada geração. A trilha sonora é sensacional e daquelas que ficam na sua cabeça durante dias. A narrativa é um show a parte com aquele narrador de voz rouca detalhando cada passo e ação do protagonista. Os gráficos parecem pintados à mão e você pode parar por alguns instantes só pra admirar o que aparece na sua TV.

As conquistas (Achievements) dos Arcades também foram mais justas e menos estressantes do que as dos games full retail (os de capa e disco). Normalmente os Arcades possuem 12 ou 15 conquistas e muitas delas relacionadas à campanha principal enquanto outras demandam tarefas até prazerosas de serem realizadas, ou difíceis mas completamente factíveis. Exceto talvez por uma conquista de Limbo, em que você deve terminar o jogo de uma só vez com no máximo 5 mortes. Bah, esse pode ficar incompleto.

Compare com os full retail e suas 50 conquistas que muitas vezes requerem tarefas ingratas e massacrantes só pra fazer com que o jogador continue colocando o disco na bandeja do console por mais um longo tempo. Chegar ao nível 100 e ainda conseguir todas as medalhas Onyx pra uma conquista em Gears of War 3? Tem ideia do quão trabalhoso é conseguir apenas uma medalha Onyx? Imagina todas. Quantas horas você vai precisar investir nisso? Argumente que sou noob, que sou fraco ou o que quiser, mas isso não é diversão, isso é labutar.

The Walking Dead apostou em uma história comovente e no peso de suas decisões e fez bonito

Não estou dizendo aqui que os Arcades são perfeitos, não mesmo. Warp é bem repetitivo e logo se torna chato, os dois episódios de Sonic 4 tem uma física estranha e design de fases pouco inspirado não entregando o que prometiam, Shank tem sérios problemas de jogabilidade que estragam completamente o que tinha potencial para ser uma ótima experiência, a segunda metade de Limbo possui puzzles decepcionantes e o ritmo do jogo se perde em um contraste bem claro com a excepcional primeira metade do game. E por aí vai.

Também seria injusto dizer que toda diversão que tive nessa geração vieram dos Arcades. Os blockbusters também me divertiram bastante. Assassins Creed 2, Batman: Arkham Asylum, Batman: Arkham City, a trilogia Gears of War, Rayman Origins, Super Street Fighter 4, Bayonetta e Halo: Reach são só pra citar alguns.

Entretanto, os Arcades continuam no topo da minha lista quando não quero ter que investir horas em quests de Skyrim, no microgerenciamento de personagens em Final Fantasy, ou nas corridas ultra-realistas de Forza (Sou da escola Mario Kart de corrida). Não quero ter que tirar PHD pra dominar os games que jogo. Quero diversão descompromissada e barata, e de vez em quando algo que me faça dizer “Hum… Isso foi bem original. Gostei”. Talvez eu esteja seguindo na contramão da indústria de games atual, que investe em realismo, mecânicas hardcore e prostituição de franquias com seus lançamentos anuais e pouca evolução entre eles. Mas enquanto os Arcades me fizerem companhia estarei bem satisfeito.

Enquanto os games blockbusters parecem um filme do Michael Bay, com suas explosões, clichês e exemplo de gastos exagerados, os Arcades se aproximam bem mais de um trabalho do Woody Allen, divertido e, caso não sejam originais, pelo menos foram muito bem executados.

Leonardo Marinho é apaixonado por games, viciado em tecnologia e apreciador de todas as formas de entretenimento. Quando possível ele tenta ser gamer, manter o Deu Tilt atualizado e levar uma vida normal. Sua consciência ainda não foi afetada pelas intempéries do tempo e ele aproveita essa façanha para redigir textos coerentes para o Deu Tilt. Ele faz o que pode…

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