A atual crise administrativa pela qual o Senado brasileiro vem passando o colocou no foco das manchetes em jornais, revistas, sites e televisão. Após sucessivos escândalos e denúncias, a Casa vem perdendo cada vez mais prestígio frente a opinião pública.

A crise começou em Março, quando uma série de denúncias trouxe a tona que o Diretor Geral do Senado, Agaciel Maia (no cargo desde 1995, por indicação de José Sarney), era dono de uma mansão, no Lago Sul, avaliada em 5 milhões de reais que não constava em sua declaração de bens. Essa foi a primeira de uma série de irregularidades que se seguiram, como a “farra das passagens”, onde foram beneficiados tanto senadores, como deputados federais (inclusive alguns que já não tinham mais mandato), que emitiam, de forma indiscriminada, centenas de passagens aéreas para benefício próprio.

Algum tempo depois a Folha de São Paulo publicou uma notícia informando que em janeiro, período de recesso do Senado, foram gastos mais de 6 milhões em horas extras pagas aos funcionários.

O Diretor de Recursos Humanos pediu demissão do cargo, após ter sido comprovado que seus filhos moravam sozinhos em um apartamento funcional do Senado enquanto ele e sua esposa moravam em uma casa no Lago Sul.


A sucessão de escândalos continua, quando os senadores são surpreendidos pela quantidade de diretores na Casa. Foram descobertos um total de 181 diretores, dos quais somente 38 são diretorias de verdade, enquanto os restantes apenas receberam esse status. A maioria recebendo um salário de cerca de 18 mil reais.

O senador Tito Viana emprestou seu celular a filha, numa viagem que ela fez ao México, por duas semanas. O resultado foi uma conta telefônica de mais de 14 mil reais.

Não fosse o bastante, foi comprovado que o Presidente do Senado, José Sarney, utilizava o serviço de segurança do Senado para a proteção de seu patrimônio pessoal, no Maranhão. E o mais recente dos escândalos foi a descoberta de 312 boletins não publicados e que continham 663 atos administrativos. Os quais beneficiaram diretamente 37 senadores de diversos partidos. A estimativa era de que 280 atos estivessem em vigor, mas após algumas investigações chegaram ao exorbitante número de 663 atos, entre eles, o aumento salarial dos senadores e a contratação de mais de duzentos funcionários sem declaração ao Diário da União.

A situação de Sarney só piora, pois sua participação nos atos secretos somaram-se a outros escândalos nos quais esteve envolvido, como nepostismo, desvio de dinheiro, empréstimos, entre outros.

E isso é só uma pequena parte de toda a confusão de escândalos em que o Senado brasileiro esteve envolvido desde o inicio do ano.

Tudo isso culmina em protestos e manifestações pedindo o afastamento de Sarney, que já recebeu a alcunha de “Câncer da política brasileira” e que diz que não deixará a presidência da Casa. Quando pressionado pela opinião pública Sarney afirmou “A crise não é minha. A crise é do Senado”.

Em meio a todos os escândalos e denúncias que envolveram o Senado ao longo do ano a afirmação de Sarney, por incrível que pareça, está correta. Apesar de ter se tornado o foco dos protestos nos últimos meses, devido sua participação em outros esquemas ilícitos, não é apenas Sarney o único senador problemático para a política brasileira. A Casa inteira está em crise.

E a notícia repercute em todo o mundo. A crise no Senado brasileiro virou reportagem da revista inglesa The Economist. Na qual foi publicada uma matéria com o título “Casa dos horrores” onde abordava de maneira irônica os escândalos envolvendo os senadores.

E pra piorar ainda mais a imagem da Casa, a ONG Transparência Brasil revelou dados de uma pesquisa que mostra que o Senado brasileiro, por membro, é o mais caro e ineficaz de um conjunto de sete países analisados, dentre eles os Estados Unidos.

Diante de tantos problemas surge uma discussão que põe em cheque a própra existencia do Senado. Para Carlos Fico, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a postura apresentada pela instituição, que há muito não contribui de forma eficiente para a política brasileira, é uma ótima oportunidade para considerar a adoção do unicameralismo. “Diante do que se vê no país, a discussão sobre o unicameralismo não pode ser descartada. Por que não?” afirma.

Os escândalos dos últimos meses incutiram no povo brasileiro a idéia de que o Senado é uma instituição sem futuro, governada por corruptos e poderosos. Ações de protestos e movimentos, como o #forasarney, demonstram a insatifação popular e o desejo de mudança da sociedade. Entretando, o poder dessas manifestações é limitado pela pouca participação pública. Se por um lado temos pessoas que não se contentam com a atual situação e lutam buscando melhorias, do outro temos um grupo ainda maior de pessoas que estão completamente por fora do que acontece na vida pública do país.

Pelo menos a crise nos dá uma chance de realizar reformas na Casa e garantir que recupere um pouco do prestígio que possuia antes. Com certeza essa não foi toda a sujeira que havia por debaixo do tapete dos senadores, mas ao menos foi o bastante para mostrar que o Senado, do jeito que está, não irá se sustentar por muito tempo.

Leonardo Marinho é apaixonado por games, viciado em tecnologia e apreciador de todas as formas de entretenimento. Quando possível ele tenta ser gamer, manter o Deu Tilt atualizado e levar uma vida normal. Sua consciência ainda não foi afetada pelas intempéries do tempo e ele aproveita essa façanha para redigir textos coerentes para o Deu Tilt. Ele faz o que pode…

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