As primeiras semanas de aula na Universidade são sempre da mesma forma: Muita euforia, excitação, alegria e uma enxurrada de novidades que nos cativam a cada instante. O interessante, porém, começa a acontecer logo após esse período. É quando começamos a analisar a Universidade com mais atenção. Quando começamos a notar suas falhas e seus méritos.

É quando ficamos com aquela dúvida se estamos realmente fazendo o curso certo, se é realmente isso que queremos para nossa vida. E quando começamos a perceber como são as pessoas que nos cercam, e a notar as pequenas, ou grandes, diferenças entre eles e nós.

Essa pequena introdução é somente para situar você, leitor, da condição em que me encontro no momento. Acabei de sair da fase de euforia e excitação e agora começo a ter uma visão mais profunda de toda a Universidade. E com isso comecei a perceber pequenas coisas que me fazem refletir durante horas.

E é sobre uma delas que quero falar nesse texto. Abordar como nosso país funciona ao contrário e como isso torna as oportunidades de ensino superior desiguais a população. Não entendeu? Tudo bem, vamos com calma. Deixa que eu explico.

É comum hoje que o discurso defendido por todos seja o de que a educação é a base de tudo. E disso não discordo. Quem me conhece sabe que sou um dos defensores de tal ideologia. Mas quando uma pessoa de classe baixa ou que vive em péssimas condições, a grosso modo, o pobre, procura uma forma de melhorar de vida, quase que de maneira robótica a resposta que damos é “Estude para conseguir um bom emprego e subir na vida”.

É aí que está o problema. Como podemos dar esperanças de que o estudo lhe dará uma vida melhor se é extremamente difícil que essa pessoa chegue a cursar um nível superior? Hoje o mínimo que as empresas exigem é um nível superior. A graduação deixou de ser sinal de status elevado para se tornar mínimo. E o problema é que o acesso às Universidades ainda acontece de maneira elitizada.

O vestibular hoje seleciona, a meu ver, mal. Uma pessoa que deseja realmente cursar uma boa Universidade e batalha durante todo seu Ensino Médio, pois não tem condições de pagar um bom curso pré-vestibular, precisa competir com o camarada que fez o melhor curso da cidade. O resultado a gente já conhece.

O que estou tentando dizer é que as chances de que essa pessoa de classe baixa estude em uma Universidade pública, consiga um bom emprego e melhore sua qualidade de vida é muito pequena, uma vez que antes ela precisa competir de maneira injusta com pessoas que estão em melhores condições que ela.

Mas é claro que a idéia acima não é regra. Há casos de pessoas que se esforçaram e tiveram resultados. Podemos ver dentro de Universidades públicas pessoas que durante toda a vida tiveram um péssimo ensino, mas que possuem força de vontade, estudaram de maneira séria e conseguiram conquistar sua vaga. O problema é que casos como esse são raros.

Como forma de contornar esse problema o governo cria então o sistema de cotas. Reservando parte das vagas de algumas Universidades a estudantes oriundos da rede pública de ensino, índios ou negros. Com isso o governo dá um tiro no próprio pé, pois assume para todo o Brasil que a qualidade do ensino nas escolas públicas é uma bela porcaria.

Garantir um ensino de qualidade a todos, independente de serem da rede pública ou privada solucionaria diversos problemas. Mas o governo tem outras prioridades, ora bolas, não pode apenas se preocupar com essa peça importante no futuro dos brasileiros, não acha?

Prova do que digo é que hoje menos de 10% da população brasileira tem nível superior. Se o acesso as Universidades públicas não ocorresse de maneira elitizada essa porcentagem aumentaria incrivelmente. Com isso a mão de obra especializada no país seria mais abundante e não precisaríamos importar trabalhadores. Seguindo o ciclo, a classe média também aumentaria, elevando o consumo, fazendo a economia crescer. Com mais mentes pensantes e menos massa de manobra a qualidade de vida no país melhoraria, e muito. Tudo isso melhorando apenas a qualidade do ensino… Viu como tudo funciona em um ciclo?

O Brasil, infelizmente, funciona de maneira contrária, limitando as oportunidades de quem realmente precisa delas. Com isso o país não cresce o quanto poderia e grande parte da população continua sem expectativas de uma melhora de vida.

São coisas como essa que agora permeiam meus pensamentos durante boa parte do tempo. E não trato o problema com aquele discurso politicamente correto, mas sim de forma realista e racional. Após refletir sobre tudo isso sinto-me um privilegiado por estar tendo a oportunidade de cursar uma Universidade pública e ter a chance de conseguir uma vida melhor. Espero que outros universitários, assim como eu, sintam o mesmo e dêem o verdadeiro valor a tudo isso.

Mas é claro, que tudo o que acabei de escrever você já conhece e esse, provavelmente, não passa de só mais um discurso sobre tudo o que você já sabe.

Leonardo Marinho é apaixonado por games, viciado em tecnologia e apreciador de todas as formas de entretenimento. Quando possível ele tenta ser gamer, manter o Deu Tilt atualizado e levar uma vida normal. Sua consciência ainda não foi afetada pelas intempéries do tempo e ele aproveita essa façanha para redigir textos coerentes para o Deu Tilt. Ele faz o que pode…

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