Ao que parece o MEC lê o Deu Tilt.
Dias depois do meu último post, em que falei sobre como o ensino superior no Brasil é elitizado, o Ministério da Educação anunciou uma proposta para substituição dos vestibulares das universidades federais.
De acordo com a proposta entregue para a Andives (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), o atual vestibular seria substituído pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em uma versão mais robusta, composta por uma redação e 200 questões divididas em quatro áreas de conhecimento: Linguagens, códigos e suas tecnologias, Ciências Humanas e suas tecnologias, Ciências da Natureza e suas tecnologias e Matemática e suas tecnologias. Tudo isso em dois dias de provas. Deixando a critério das universidades realizar ou não uma segunda fase.
De acordo com o ministério, a mudança visa reestruturar o conteúdo do Ensino Médio. Sair da atual decoreba e fazer o aluno pensar, sabe? Dessa forma, buscam acabar com o modelo atual de seleção, que hoje não é feita da forma mais justa. O MEC tem previsão para aplicar esse novo modelo de vestibular a partir de outubro desse ano.
Caso a proposta seja aceita o aluno prestará o vestibular unificado e depois receberá suas notas. Em seguida, ele se inscreve nas instituições que deseja disputar uma vaga, podendo escolher até cinco opções de curso, em ordem de preferência. Se não for aprovado para sua primeira opção ele ainda pode ser classificado para as outras quatro. Um ponto que vale ser ressaltado é que pelo exame possuir caráter nacional, será possível se inscrever em qualquer instituição federal do país. Você não vai mais precisar viajar para outro Estado só para fazer as provas.
Como esse novo modelo evidentemente geraria mais mobilidade de universitários o ministro da educação, Fernando Haddad, prometeu (sempre promessas) aumentar a verba destinada à assistência estudantil, que é usada para custear moradia e alimentação. O valor aumentaria dos atuais R$ 200 milhões para R$ 400 milhões.
A aceitação por parte das instituições federais de ensino é essencial para que a proposta seja implementada com sucesso. Para isso, foi realizada uma reunião entre Haddad e os 55 reitores com o objetivo de abrir espaço às instituições para opinarem e ajustar o modelo às necessidades das universidades e dos estados.
Ao menos 38 reitores já demostraram sua aprovação à proposta, dentre eles Aloísio Teixeira, reitor da UFRJ. “Sou mais do que a favor, abracei entusiasticamente a proposta (…) Está se abrindo caminho para uma mudança radical que golpeia a indústria do vestibular e permite um reforço constante da escola de nível médio” diz Teixeira.
O termo referencial, com detalhes sobre o exame será levado aos conselhos superiores das universidades, a quem cabe a decisão de implementar ou não as mudanças.
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Agora, se me permite, alguns comentários.
A idéia é boa, até porque, a meu ver os vestibulares selecionam mal e favorecem uma pequena elite (se quer saber o que eu penso leia o post anterior). A teoria toda é muito boa, mas o problema pode estar na prática.
A começar com o que o ministério entende como raciocinar. Já que a prova vai priorizar o raciocínio e não a decoreba. Se o raciocínio do ministério é uma coisa parecida com o ENEM estamos perdidos, já que a prova do exame nacional do ensino médio é uma piada. De tão fácil que é fica difícil encontrar uma pessoa que não tenha acertado no mínimo 59 das 63 questões da prova atual.
O nível de dificuldade extremamente baixo do Enem permite que todos façam muitos pontos. E quando digo todos isso inclui o seu amigo que estudou feito louco e até o camarada que nem sequer tocou nos livros. Disputar em uma prova onde todo mundo se dá bem fica difícil. Por isso o “Estilo Enem de ser” precisaria ser evitado.
E vai ter gente reclamando a respeito de uma única prova. Que atire a primeira pedra quem nunca ficou nervoso a ponto de ter dor de barriga, suar frio ou coisa pior durante o vestibular. Com a adoção do projeto essa passa a ser a única prova a ser feita. Isso significa que ter aquele “piriri” durante o exame causa morte súbita para seus planos de se tornar um universitário e um singelo “Tente novamente no próximo ano”. As coisas ficarão mais tensas, não acha?
A possibilidade de se inscrever em uma faculdade de outro Estado pode gerar problemas e acabar não solucionando a elitização do ensino. Vou explicar: Em cursos mais concorridos como medicina, alunos de regiões mais ricas poderão ocupar vagas em universidades de regiões não tão desenvolvidas que antes seriam destinadas a alunos regionais. Terminando o curso ele volta pra casa e o local acaba não se desenvolvendo. Está complicado? Vou tentar dar um exemplo: Um aluno do Rio ou São Paulo é aprovado para cursar medicina em uma faculdade no nordeste. Obviamente ele tirou a vaga de uma pessoa da região. Ao se formar é pouco provável que esse aluno continue por lá. E quando volta para sua terra natal acaba não contribuindo para o desenvolvimento do nordeste como um aluno da região contribuiria. Entendeu agora? Não? Paciência.
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Agora passo a bola pra você, leitor. Você acha que a proposta para o fim dos vestibulares é algo positivo e que pode realmente levar o ensino superior às camadas mais desfavorecidas, acabando de vez com a elitização do ensino?
E o fim da decoreba é algo bom ou ruim?
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